Imagem de divulgação da série Carrie, do Prime Video
Imagem de divulgação: Prime Video / Amazon MGM Studios, via About Amazon.

Tem adaptação que atualiza um clássico. Tem adaptação que homenageia um clássico. E tem adaptação que olha para o livro, dá um sorriso amarelo e diz: “Obrigado pela inspiração, agora deixa que eu faço do meu jeito”.

A nova Carrie, a Estranha, de Mike Flanagan, parece pertencer à terceira categoria. A Amazon apresenta uma releitura contemporânea do romance de Stephen King, com bullying digital, redes sociais e uma abordagem diferente da protagonista. Até aí, tudo bem. O problema é quando a reinvenção começa a parecer troca de identidade.

A Carrie do livro foi passear?

No romance de 1974, Carrie White é marcada pelo isolamento, pela repressão e por uma relação sufocante com a mãe. Seu sofrimento é a engrenagem de uma história cruel e profundamente trágica. Na nova versão, a construção emocional da protagonista muda e os personagens ao redor recebem outras motivações.

Modernizar o bullying para a era das redes sociais faz sentido. Afinal, a crueldade adolescente não ficou presa em 1974. Mas acrescentar atualidade não é a mesma coisa que preservar a identidade da obra. Para esta coluna, a série ultrapassa essa linha. É como pedir acarajé e receber sanduíche gourmet: pode até ter seus admiradores, mas cadê o dendê?

Imagem promocional de Carrie White na série
Imagem promocional de Carrie: Divulgação / Prime Video / Amazon MGM Studios, via Inverse.

E Margaret White? Até a mãe ganhou uma reforma?

Uma das decisões mais discutíveis é a tentativa de tornar Margaret White mais compreensível. Dar complexidade a personagens difíceis pode ser interessante. Só que Margaret não existe apenas para ser compreendida: sua presença opressora é fundamental para entendermos a tragédia de Carrie.

Quando a adaptação suaviza certas características e redistribui responsabilidades, corre o risco de enfraquecer o horror psicológico que tornou o livro inesquecível. Margaret passou por tanta reforma que só faltou chamar um programa de decoração.

Cena de divulgação da série Carrie
Cena de divulgação: Prime Video / Amazon MGM Studios, via Les Numériques.

Stephen King gostou? O público pode discordar.

A aprovação do autor não encerra a discussão sobre uma adaptação. Cada leitor e espectador pode avaliar se as escolhas preservam a identidade que reconhece na obra.

Para esta coluna, o debate está na construção dos personagens e na fidelidade ao espírito do livro. É nessas escolhas criativas que concentramos nossa crítica.

Nem tudo é desastre. Mas isso salva a adaptação?

Seria injusto negar os méritos da produção. O elenco se dedica aos personagens e Flanagan sabe construir atmosferas desconfortáveis. Só que uma série pode ter boas atuações, fotografia competente e produção caprichada e ainda assim fracassar como adaptação para parte dos leitores.

Esse é exatamente o nosso problema com Carrie. Uma adaptação não precisa copiar cada página, mas precisa entender por que aquelas páginas importam.

Veredito SPN News: 4/10

Uma reinvenção ambiciosa, mas distante demais da personagem que fez o livro funcionar. Mike Flanagan quis oferecer uma nova interpretação. O problema é que, na nossa avaliação, mudou tanto a receita que o prato perdeu o sabor.

A Amazon entregou uma Carrie para uma nova geração. Só esqueceu que a antiga já tinha uma personalidade extraordinária — e não precisava ser substituída para continuar relevante.

Fernando — SPN News.

Imagens promocionais creditadas aos detentores. Crítica opinativa.