José Mojica Marins caracterizado como Zé do Caixão
José Mojica Marins, o Zé do Caixão, em fotografia de 2008. Foto: VIDYAYĀ / Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0. Créditos e licença.

Antes de o streaming transformar qualquer catálogo em maratona, a televisão aberta tinha suas sessões capazes de criar uma pequena comunidade de fãs. Para quem gostava de monstros, produções baratas e histórias fora do padrão dos grandes estúdios, o Cine Trash, da Band, virou um endereço especial — e tinha um anfitrião impossível de confundir: Zé do Caixão.

A sessão estreou em 5 de fevereiro de 1996, com Halloween 4: O Dia das Bruxas, e foi apresentada por José Mojica Marins, cineasta que já havia construído uma das figuras mais reconhecíveis do horror brasileiro. O programa exibia filmes de terror e suspense, muitos deles produções de baixo orçamento que encontravam na televisão uma nova oportunidade de circular. A Folha registrou a estreia e a programação inicial em fevereiro de 1996.

O apresentador era parte do espetáculo

O grande diferencial não estava apenas nos filmes. Mojica aparecia como Zé do Caixão, com figurino sombrio, unhas longas e a postura provocadora que o público já associava ao personagem. As introduções transformavam a sessão numa experiência com identidade própria: antes de começar o filme, havia um encontro com o mestre de cerimônias do macabro.

Essa presença ajudava a dar unidade a uma seleção de títulos bastante variados. Em vez de vender cada longa como um lançamento sofisticado, o Cine Trash abraçava o apelo do estranho, do exagerado e do inesperado. O rótulo “trash”, que muitas vezes era usado para descrever filmes de acabamento irregular ou orçamento limitado, virava uma marca reconhecível e parte da diversão.

Paisagem escura e atmosfera gótica que remete ao cinema de terror
O clima gótico e os cenários expressivos fazem parte da memória visual do cinema de terror. Imagem ilustrativa: Unsplash.

Quando o terror virou conversa sobre horário e classificação

O sucesso da sessão também trouxe controvérsias. Reportagens da época registraram questionamentos sobre a exibição de filmes considerados inadequados para o horário da tarde e decisões judiciais que afetaram a programação em algumas regiões. Em agosto de 1996, a Folha de S.Paulo noticiou a suspensão da sessão vespertina em Brasília após uma ação relacionada à classificação indicativa. Leia o registro histórico da Folha.

É importante separar o debate sobre a adequação de horário da ideia de que o gênero deveria desaparecer da televisão. A classificação indicativa existe para ajudar famílias a decidir o que faz sentido para cada faixa etária; ao mesmo tempo, a história do Cine Trash mostra como a TV aberta foi um espaço de descoberta para obras que dificilmente ocupariam o centro da programação.

Um legado de culto

O programa mudou de faixa horária e formato ao longo de sua trajetória, antes de sair do ar. Mesmo com uma vida relativamente curta, deixou uma lembrança duradoura para quem descobriu ali o cinema de horror de baixo orçamento, os filmes excêntricos e o prazer de assistir a algo que parecia vir de outra prateleira cultural.

O Cine Trash também ajudou a reafirmar a força televisiva de Mojica. Zé do Caixão não era apenas um personagem de cinema: sua imagem e sua voz conseguiam transformar uma sessão de filmes numa atração com personalidade própria. Hoje, quando o termo “cult” é aplicado a tantas obras, vale lembrar que a televisão brasileira também teve seus rituais de descoberta — e que alguns começavam com um caixão, uma maldição teatral e a promessa de uma tarde diferente.

Fontes e leitura complementar

Especial de memória da TV e do terror. Texto editorial: Gardner Steel.